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O recente relatório da Comissão Europeia «Mundos virtuais: como afetam a nossa saúde e bem-estar?» (julho de 2025), elaborado no âmbito da estratégia europeia para promover um ecossistema aberto, seguro e inclusivo de mundos virtuais, representa um marco na compreensão das experiências imersivas.

Através de uma análise das suas aplicações e riscos, o documento mostra como estas ferramentas estão a transformar múltiplas dimensões da vida quotidiana, desde a educação e os âmbitos profissionais até ao consumo, a cultura, a medicina, a inclusão social ou o bem-estar de grupos vulneráveis.

Bem-estar, atividade física e novas formas de socialização

O uso pessoal e de entretenimento da realidade virtual está a crescer rapidamente. Um dos efeitos positivos mais notáveis identificados pelo estudo é a promoção da atividade física por meio de exergames ou jogos de exercício imersivos, que contribuem para melhorar a condição física, as habilidades motoras e a coordenação.

Para além da atividade física, o documento também destaca o seu potencial para o bem-estar emocional. A simulação de paisagens naturais ou as experiências de mindfulness em ambientes virtuais podem ajudar a reduzir o stress, melhorar a regulação emocional e mitigar a ansiedade, permitindo o acesso a partir de casa.

Ao mesmo tempo, estas soluções estão a dar origem a novas formas de interação social e a permitir a criação de espaços sociais seguros, como grupos de apoio ou comunidades digitais, que facilitam a conexão entre as pessoas e contribuem para reduzir o isolamento social.

Neste contexto, o relatório também destaca o seu potencial para melhorar a acessibilidade e a participação de determinados grupos vulneráveis. Graças a interfaces imersivas e multimodais, estas experiências permitem o acesso a atividades sociais, educativas ou de bem-estar sem a necessidade de deslocação física, o que pode ser especialmente benéfico para idosos, pessoas com deficiência ou doentes crónicos. Desta forma, os ambientes virtuais podem contribuir para manter laços sociais, facilitar o acesso a recursos de apoio e promover uma maior participação na vida social e comunitária.

Aplicações clínicas das tecnologias imersivas

O relatório analisa, por sua vez, o impacto destas soluções em áreas profissionais, especialmente no setor da saúde, onde estão a transformar a formação e a prática clínica, permitindo ensaiar operações complexas em cenários simulados e sem riscos.

Este tipo de formação melhora a coordenação mão-olho e permite aperfeiçoar habilidades técnicas antes de intervir em pacientes reais, aumentando a segurança.

Profissionais de saúde utilizam óculos de realidade virtual para o treino

A realidade virtual também está a demonstrar a sua utilidade no âmbito terapêutico. Vários estudos recolhidos no documento apontam a sua eficácia no tratamento da dor aguda e crónica, uma vez que as experiências imersivas podem atuar como uma poderosa distração durante determinados procedimentos médicos. No caso de crianças e adolescentes, por exemplo, são utilizadas para diminuir a dor durante vacinações ou terapias oncológicas, bem como para abordar problemas como a hiperatividade.

Outra aplicação consolidada é a terapia de exposição, especialmente no tratamento de fobias, vícios ou transtorno de stress pós-traumático. Ao recriar situações controladas, essas ferramentas permitem que os pacientes enfrentem progressivamente seus medos em um espaço seguro.

O estudo também destaca o seu uso em processos de reabilitação física e cognitiva após um AVC. A incorporação de dinâmicas de gamificação nos exercícios terapêuticos pode aumentar a motivação dos pacientes e melhorar os resultados motores. Nesta linha, também se observam resultados promissores na reabilitação neurocognitiva de idosos, especialmente em pacientes com Alzheimer ou Parkinson.

Simulação de riscos industriais e assistência avançada

O documento da Comissão Europeia analisa o impacto da realidade virtual no âmbito industrial, onde as soluções imersivas estão a consolidar-se como uma ferramenta cada vez mais relevante para melhorar a segurança no trabalho e otimizar os processos operacionais.

Operários de uma fábrica industrial utilizam óculos de realidade virtual

Estas plataformas permitem simular cenários de alto risco, como incêndios ou a operação de maquinaria pesada, facilitando que os trabalhadores interiorizem os protocolos de segurança sem se exporem a situações de perigo real.

Por sua vez, a realidade aumentada abre novas possibilidades de assistência em tarefas complexas. Através de instruções visuais sobrepostas ao ambiente real, pode guiar os operários passo a passo durante os processos de manutenção ou reparação, reduzindo a carga cognitiva e melhorando a precisão na execução das tarefas.

Aprendizagem imersiva e novas oportunidades pedagógicas

Para além dos domínios sanitário e industrial, o relatório analisa também o impacto destas soluções na educação.

Entre os seus benefícios, destaca-se o maior envolvimento emocional e cognitivo dos alunos. Graças a estes espaços virtuais, os alunos podem explorar cenários de aprendizagem e experimentar situações que, na vida real, seriam arriscadas ou difíceis de reproduzir numa sala de aula convencional.

Estudantes utilizam a Realidade Virtual nas suas formações

Estas ferramentas também permitem avançar para uma educação mais inclusiva. Em alunos com necessidades diversas ou neurodivergências, como TDAH ou transtorno do espectro autista, os cenários personalizados podem favorecer a motivação, a participação e a colaboração.

Além disso, o documento indica que estas soluções podem contribuir para reduzir as desigualdades educativas. Alguns programas utilizam óculos de realidade virtual que funcionam sem ligação à Internet para levar conteúdos educativos a zonas rurais ou mercados emergentes, ampliando assim o acesso à aprendizagem.

Desafios e recomendações: rumo a um ecossistema seguro

Juntamente com os benefícios, a Comissão Europeia também identifica vários desafios que devem ser enfrentados para garantir um desenvolvimento responsável dessas tecnologias.

Entre eles estão alguns efeitos físicos associados ao uso de dispositivos imersivos, como a ciberenjoo (cybersickness), a fadiga visual ou os possíveis impactos decorrentes do uso prolongado, aspectos que ainda requerem mais investigação científica.

O estudo também alerta para os riscos relacionados com o uso excessivo de espaços virtuais. A substituição prolongada de interações do mundo real por experiências digitais pode resultar em problemas psicológicos como dependência, depressão ou solidão. Em ambientes profissionais, a ausência de sinais sociais tangíveis pode aumentar a sensação de isolamento, enquanto na educação a substituição do contacto presencial pode afetar o desenvolvimento social e a saúde mental dos alunos.

Outro desafio é a exposição a experiências negativas dentro desses ambientes digitais. A intensidade da imersão pode fazer com que situações de assédio, cyberbullying, violência ou discurso de ódio sejam percebidas de forma muito mais realista, intensificando o seu impacto psicológico. Este risco é especialmente relevante para menores ou grupos vulneráveis, que podem enfrentar conteúdos prejudiciais, comportamentos abusivos ou situações de grooming.

Um futuro centrado nas pessoas

A mensagem do relatório da Comissão Europeia é clara: a realidade virtual deixou de ser uma tecnologia de nicho. Ao mesmo tempo, sublinha a necessidade de avançar para um ecossistema mais seguro através de códigos de conduta éticos, sistemas de moderação mais robustos e orientações claras em matéria de saúde no trabalho.

Na Innovae, partilhamos esta visão centrada nas pessoas. Por isso, para além do desenvolvimento tecnológico, damos especial ênfase ao acompanhamento dos nossos clientes na implementação de soluções imersivas, fornecendo orientação e boas práticas para aplicar estas ferramentas de forma segura e responsável, tanto em ambientes educativos como profissionais.

A nossa abordagem parte de uma ideia fundamental: a realidade virtual não substitui a dimensão humana da formação, do trabalho ou da interação social, mas atua como uma ferramenta ao serviço das pessoas. Como qualquer tecnologia, o seu verdadeiro potencial depende de como é utilizada.

Só assim poderemos conseguir que estas soluções contribuam para criar experiências imersivas que tragam valor real, seguro e transformador à sociedade.